Dor no calcanhar: o que pode ser, quais são as causas e como tratar?
Sentir dor no calcanhar ao levantar da cama, ao caminhar ou depois de passar muito tempo em pé é um problema bastante comum. Em algumas pessoas, a dor aparece apenas nos primeiros passos da manhã. Em outras, incomoda durante todo o dia e chega a dificultar atividades simples, como caminhar, trabalhar ou praticar exercícios físicos.
Muitas pessoas acreditam que a dor no calcanhar é sempre causada por um esporão. Mas isso não é verdade. Existem diferentes problemas que podem provocar dor nessa região, e cada um deles precisa de uma abordagem específica.
Uma das causas mais frequentes é a fascite plantar, uma inflamação ou alteração da estrutura que fica na sola do pé e ajuda a sustentar o arco plantar. Entretanto, problemas no tendão de Aquiles, pequenas lesões no osso do calcanhar e até compressões de nervos também podem provocar sintomas semelhantes.
A localização da dor e o momento em que ela aparece ajudam bastante a identificar sua causa. Por isso, entender o que está acontecendo é o primeiro passo para escolher o tratamento correto.
Neste artigo, vamos explicar quais são as principais causas de dor no calcanhar, como identificar cada problema e quais tratamentos podem ajudar a aliviar os sintomas.
Quais são as principais causas de dor no calcanhar?
O calcanhar é uma região que recebe grande parte do peso do corpo durante a caminhada. Por isso, está sujeito a sobrecargas e diferentes tipos de lesões.
Uma informação importante é que a localização da dor pode ajudar a identificar sua origem. Quando ela aparece na parte de baixo do calcanhar, por exemplo, pensamos principalmente na fascite plantar. Quando incomoda atrás do calcanhar, os problemas no tendão de Aquiles e nas estruturas próximas são possibilidades importantes.
Vamos conhecer as causas mais frequentes.
1. Fascite plantar
A fascite plantar é uma das causas mais comuns de dor no calcanhar.
A fáscia plantar é uma faixa de tecido resistente que fica na sola do pé, ligando o calcanhar à região dos dedos. Ela funciona como uma espécie de sustentação natural do arco do pé e participa da distribuição das forças durante a caminhada.
Quando essa estrutura sofre sobrecarga repetida, podem surgir alterações que provocam dor, principalmente na região próxima ao calcanhar.
Uma característica bastante comum é sentir muita dor nos primeiros passos da manhã ou depois de permanecer sentado por algum tempo. Muitas vezes, a dor melhora depois de alguns minutos caminhando, mas pode voltar após períodos prolongados em pé ou durante atividades físicas.
O problema pode estar relacionado a diferentes fatores, como aumento da atividade física, ganho de peso, uso de calçados inadequados e alterações na mecânica dos pés.
O tratamento geralmente começa com medidas para reduzir a sobrecarga, exercícios específicos, fisioterapia e, em alguns casos, uso de palmilhas.
2. Esporão de calcâneo
O esporão de calcâneo é uma pequena formação óssea que aparece no osso do calcanhar, geralmente na região onde a fáscia plantar se prende.
É muito comum encontrar esporões em radiografias de pessoas que apresentam dor no calcanhar. Entretanto, existe um detalhe importante: muitas pessoas têm esporão e não sentem absolutamente nada.
Isso acontece porque o esporão, por si só, nem sempre é o responsável pela dor. Frequentemente, o desconforto está relacionado às alterações da fáscia plantar que acontecem na mesma região.
Por esse motivo, encontrar um esporão no exame de raio-X não significa necessariamente que ele precise ser tratado ou retirado por cirurgia.
O mais importante é identificar a verdadeira origem da dor e tratar o problema responsável pelos sintomas.
3. Tendinite do tendão de Aquiles
O tendão de Aquiles fica na parte de trás do tornozelo e liga os músculos da panturrilha ao osso do calcanhar. Ele é fundamental para caminhar, correr, subir escadas e ficar na ponta dos pés.
Quando esse tendão sofre sobrecarga, podem surgir alterações que provocam dor na parte posterior do calcanhar.
O paciente costuma perceber dor ao caminhar, correr ou subir escadas. Também pode sentir rigidez e desconforto ao levantar pela manhã ou depois de permanecer muito tempo em repouso.
Em alguns casos, a dor aparece exatamente no local onde o tendão se prende ao osso do calcanhar.
O tratamento depende da gravidade do problema e pode envolver ajustes nas atividades físicas, fisioterapia, exercícios para fortalecimento da panturrilha e outras medidas específicas.
4. Bursite retrocalcânea
A bursite retrocalcânea é uma inflamação de uma pequena bolsa que fica entre o tendão de Aquiles e o osso do calcanhar.
Essa bolsa funciona como uma proteção, diminuindo o atrito entre as estruturas durante os movimentos do tornozelo.
Quando fica inflamada, pode provocar dor na parte de trás do calcanhar, principalmente ao caminhar ou utilizar calçados que pressionam essa região.
Algumas pessoas também apresentam inchaço e sensibilidade ao tocar a parte posterior do calcanhar.
O tratamento costuma envolver redução da pressão sobre a região, ajustes nos calçados, fisioterapia e controle da inflamação, conforme a avaliação médica.
5. Compressão de nervos
Nem toda dor no calcanhar tem origem nos músculos, tendões ou ossos. Em algumas situações, o problema está relacionado à compressão de um nervo.
Essa compressão pode provocar dor acompanhada de queimação, formigamento, sensação de choque ou dormência na região do pé.
Uma das possibilidades é a síndrome do túnel do tarso, que ocorre quando um nervo é comprimido na região interna do tornozelo.
Nesses casos, é importante realizar uma avaliação cuidadosa para identificar a origem dos sintomas e definir o tratamento adequado.
6. Fratura por estresse do calcâneo
O osso do calcanhar também pode sofrer pequenas lesões provocadas por sobrecarga repetida. Essas lesões são chamadas de fraturas por estresse.
Elas podem aparecer principalmente em pessoas que aumentam muito rapidamente a intensidade dos exercícios, começam a correr longas distâncias ou passam a realizar atividades físicas mais intensas sem adaptação adequada.
A dor geralmente piora com o apoio do pé e pode se tornar progressivamente mais intensa.
Diferentemente de algumas outras causas de dor no calcanhar, a fratura por estresse exige cuidados específicos e, em determinadas situações, redução temporária do apoio e da atividade física.
Por isso, uma dor persistente ou progressiva no calcanhar não deve ser ignorada.
Como é feito o diagnóstico da dor no calcanhar?
O diagnóstico começa com uma conversa e um exame físico realizados pelo ortopedista.
A localização da dor, o tempo de evolução dos sintomas, as atividades que provocam desconforto e a presença de outros sinais ajudam a identificar a possível causa do problema.
Durante o exame, o médico avalia a região dolorosa, a mobilidade do tornozelo, a musculatura da panturrilha e a maneira como o paciente apoia os pés.
Em algumas situações, podem ser necessários exames complementares.
A radiografia ajuda a avaliar os ossos e identificar alterações como o esporão de calcâneo. O ultrassom pode mostrar alterações na fáscia plantar e nos tendões. Já a ressonância magnética pode ser indicada quando existe suspeita de lesões mais complexas ou quando os sintomas não são esclarecidos pelos exames iniciais.
Nem todo paciente precisa realizar todos esses exames. A escolha depende da suspeita clínica e dos resultados da avaliação.
Quais são os tratamentos para dor no calcanhar?
O tratamento depende da causa da dor. Não existe uma única solução que funcione para todos os problemas do calcanhar.
Na maioria dos casos, começamos com medidas menos invasivas, buscando diminuir a sobrecarga na região e permitir a recuperação dos tecidos.
Entre as principais opções estão:
1. Fisioterapia e exercícios
A fisioterapia tem papel importante no tratamento de diversas causas de dor no calcanhar.
Os exercícios podem ajudar a melhorar a flexibilidade, fortalecer a musculatura da panturrilha e dos pés e reduzir a sobrecarga sobre as estruturas dolorosas.
Na fascite plantar, por exemplo, exercícios específicos de alongamento da fáscia e da musculatura da panturrilha podem contribuir para a melhora dos sintomas.
Nos problemas do tendão de Aquiles, exercícios de fortalecimento progressivo são especialmente importantes para recuperar a capacidade do tendão de suportar as cargas do dia a dia.
2. Palmilhas e calçados adequados
Em alguns pacientes, o uso de palmilhas pode ajudar a distribuir melhor a pressão sobre a planta do pé e diminuir a sobrecarga na região do calcanhar.
A escolha do calçado também merece atenção. Sapatos muito rígidos, desgastados ou que pressionam diretamente a região dolorosa podem piorar os sintomas.
Entretanto, palmilhas não são necessárias para todos os pacientes. Sua indicação deve considerar o tipo de problema e as características de cada pé.
3. Medicamentos e controle da dor
Dependendo da causa e da intensidade dos sintomas, podem ser utilizados medicamentos para aliviar a dor e controlar a inflamação.
Entretanto, é importante entender que os medicamentos ajudam principalmente no controle dos sintomas. Eles não necessariamente corrigem o problema que está provocando a dor.
Por isso, devem fazer parte de um tratamento individualizado, e não ser utilizados como única medida por períodos prolongados.
4. Terapia por ondas de choque
A terapia por ondas de choque é um tratamento não cirúrgico que utiliza ondas acústicas de alta energia aplicadas diretamente na região dolorosa.
O objetivo é estimular respostas biológicas nos tecidos, favorecendo os processos de recuperação e ajudando a reduzir a dor.
Esse tratamento tem sido bastante utilizado em pacientes com fascite plantar crônica, especialmente naqueles que não apresentaram melhora satisfatória com as medidas iniciais.
Uma das vantagens é que o procedimento não exige cirurgia e geralmente permite que o paciente retome suas atividades habituais rapidamente.
Normalmente, são realizadas algumas sessões, com intervalos entre elas. A quantidade de sessões e os parâmetros utilizados dependem do problema tratado e da resposta de cada paciente.
É importante destacar que a terapia por ondas de choque não é indicada para todos os tipos de dor no calcanhar. Sua utilização depende de um diagnóstico adequado e da avaliação das características de cada caso.
5. Infiltrações
Em algumas situações, quando a dor persiste apesar do tratamento convencional, podem ser consideradas infiltrações.
O procedimento consiste na aplicação de uma substância diretamente na região afetada, com o objetivo de aliviar os sintomas ou modificar a resposta dos tecidos.
A indicação depende da estrutura comprometida e do diagnóstico.
No caso da fascite plantar, por exemplo, infiltrações com corticoides podem proporcionar alívio da dor, mas precisam ser utilizadas com cautela, pois apresentam riscos, incluindo enfraquecimento e possível ruptura da fáscia plantar.
Por isso, não são consideradas uma solução de primeira escolha para todos os pacientes.
6. Infiltração de ácido hialurônico
O ácido hialurônico é uma substância naturalmente presente no organismo e bastante conhecida por sua utilização em tratamentos de algumas doenças articulares.
Seu uso também vem sendo estudado para determinadas condições que provocam dor no calcanhar, incluindo a fascite plantar.
A proposta é melhorar as condições do tecido e contribuir para a redução dos sintomas.
Entretanto, embora existam estudos com resultados promissores, as evidências ainda são limitadas e não permitem considerar essa infiltração um tratamento de eficácia definitivamente estabelecida para a fascite plantar.
Portanto, sua indicação deve ser criteriosa, considerando as alternativas disponíveis e as características de cada paciente.
7. Cirurgia para dor no calcanhar
A cirurgia é reservada para situações específicas, principalmente quando existe uma causa bem identificada e os tratamentos não cirúrgicos não proporcionaram melhora satisfatória.
Na fascite plantar, por exemplo, a cirurgia pode ser considerada em casos crônicos e resistentes ao tratamento, após um período adequado de acompanhamento.
Nos problemas do tendão de Aquiles, a cirurgia pode ser necessária quando existem lesões importantes ou alterações estruturais que não respondem ao tratamento conservador.
É importante lembrar que a cirurgia não é necessária na maioria dos pacientes com dor no calcanhar. A decisão deve ser individualizada, considerando os sintomas, os exames e as possibilidades de recuperação.
Quando devo procurar um ortopedista?
Se a dor no calcanhar persiste por vários dias, volta frequentemente ou começa a dificultar suas atividades habituais, é importante procurar uma avaliação especializada.
Também merecem atenção situações em que existe dor intensa, inchaço importante, dificuldade para apoiar o pé ou início súbito dos sintomas após uma atividade física ou trauma.
Quanto mais cedo identificamos a causa do problema, maiores são as possibilidades de estabelecer um tratamento adequado e evitar a persistência dos sintomas.
Perguntas frequentes sobre dor no calcanhar
1. Dor no calcanhar ao acordar é sinal de fascite plantar?
É uma característica bastante comum da fascite plantar. Geralmente, a dor é mais intensa nos primeiros passos da manhã e melhora depois de alguns minutos caminhando. Entretanto, outras condições também podem provocar sintomas semelhantes.
2. Esporão de calcâneo tem cura?
O esporão é uma formação óssea e não costuma desaparecer espontaneamente. Entretanto, isso não significa que precise ser retirado. Muitas pessoas apresentam esporão sem qualquer dor. O tratamento deve ser direcionado à causa dos sintomas.
3. Fascite plantar pode desaparecer sozinha?
Em alguns pacientes, os sintomas melhoram com o tempo e com a redução das sobrecargas. Entretanto, exercícios, fisioterapia e outras medidas podem acelerar a recuperação e reduzir o risco de persistência do problema.
4. Terapia por ondas de choque funciona para fascite plantar?
Sim. Existem estudos que demonstram bons resultados, principalmente em pacientes com fascite plantar crônica que não melhoraram com o tratamento inicial. A indicação depende de uma avaliação individualizada.
5. Quando é necessário operar a fascite plantar?
A cirurgia é considerada apenas em uma pequena parcela dos pacientes, geralmente quando a dor persiste por muitos meses e não responde adequadamente aos diferentes tratamentos não cirúrgicos.
6. Posso continuar caminhando ou praticando exercícios com dor no calcanhar?
Depende da causa e da intensidade da dor. Em muitos casos, é possível manter alguma atividade física, desde que sejam feitos ajustes para evitar sobrecarga. Entretanto, situações como fraturas por estresse exigem cuidados específicos.
Conclusão
A dor no calcanhar pode ter diferentes causas, e identificar corretamente o problema é fundamental para escolher o tratamento mais adequado.
Embora a fascite plantar e o esporão de calcâneo sejam condições bastante conhecidas, problemas no tendão de Aquiles, compressões nervosas e lesões ósseas também podem provocar sintomas nessa região.
Atualmente, existem diversas opções de tratamento, desde fisioterapia e palmilhas até terapias mais específicas, como ondas de choque e infiltrações. A cirurgia fica reservada para situações selecionadas.
Se você apresenta dor no calcanhar, procure um ortopedista especialista em pé e tornozelo para identificar a origem do problema e receber uma orientação adequada.
Dr. André Donato
Ortopedia e Cirurgia do Pé e Tornozelo